Minha função é aqui a de falar deste livro com dicção propositadamente didática, que traz dois contos de Marques de Carvalho, ilustre participante da Mina Literária e autor do controverso Hortência, que só não sacudiu a ira provinciana de Belém porque rareavam naquele momento leitores em nosso chão. A elite leitora, existente em intra e extramuros, entretanto, manifestou-se quase raivosamente ao "primeiro romance belenense" (embora Benedito Nunes tenha delegado a Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir, este título), conforme nos mostra, com acurado senso informativo, Paulo Maués Corrêa.
Temo parecer inconveniente, mas aproveito a oportunidade para expressar um ponto de vista muito pessoal e que, se calhar, é controverso senão polêmico. Diferentemente da maioria de meus colegas das fileiras acadêmicas, penso que a leitura vinculada aos exames de vestibular de todo o país ajudou a difundir autores que, de outra forma, não seriam conhecidos fora dos limites universitários. Digo isto graças a minha militância de mais de 15 anos no nível médio de ensino, período em que se presenciou, por exemplo, a inclusão de Max Martins nos vestibulares da UFPA, UEPA e UNAMA. Max, o magro poeta, inicialmente resistia à ideia de "tornar-se popular", isso até o momento em que foi convocado para debater na Biblioteca Pública, cara a cara, com alguns leitores de seus poemas. O autor de Caminhos de Marahu viu-se surpreendido com o nível de perspicácia de alguns de seus "leitores iniciantes". Nesta seara complexa, desaconselho, entretanto, o uso da expressão "leitura obrigatória", substituindo-a, motivos evidentes, por "leitura recomendada", porque, efetivamente, o leitor há de comigo convir que não existe obrigatoriedade em se tratando de leitura. Há interesse ou não. E somente.
Outro aspecto marcante de que não poderia deixar de falar aqui, afinal esta é a minha função, se dá graças ao trabalho deste jovem professor, Paulo Maués, que, discípulo de José Arthur Bogéa, de quem foi assistente de pesquisa no Museu da UFPA, apreendeu o gosto pela investigação literária, e trata o texto como uma floresta a ser investigada através dos sinuosos meandros da enunciação, o que é muito importante. Embora não queira legislar em vaidosa causa, Paulo Maués foi um dos leitores formados, no nível básico de ensino da SEMEC, pelas "cantadas literárias" do "Texto e Pretexto", projeto didático - que promoveu palestras, cursos e livro-texto, que os leitores conheceram nos idos dos anos 80 em Belém.
Mas voltemos ao que interessa, ou seja, a leitura de Que bom marido! e Desilusão traçada neste trabalho que a Paka-Tatu faz oportunamente chegar a nós, leitores ávidos de conhecer mais e mais a Amazônia através de sua obra literária. Este livro traz um Marques de Carvalho delicioso, tanto quanto possível, aos olhos dos leitores. A presente edição é composta por parte contextual e explicativa, que, por si, vale a edição. Outro destaque deste livro são as notas didáticas que revelam uma necessária atualização da linguagem para os leitores que desejam fazer uma leitura fluente. Em tempos de informação deformadora, a leitura tradicional, digo, de livros instigantes, nos deixa mais aptos à humanização humanizante.
Não tenho receio de dizer que Paulo Maués Corrêa é um pesquisador talentoso, que enriquece as novas gerações de investigadores literários de Belém do Pará, na Amazônia, e não exagero em minha afirmação, mesmo porque o leitor perceberá nas associações e nas interligações intertextuais entre os textos de Carvalho e obras literárias mais célebres, interligações que só fazem valorizar, estratégia inteligente forjada pelo professor pesquisador, a literatura produzida por Marques de Carvalho.
Finalmente, como nos diz Paulo Maués, apropriando-se de Michel Foucault, a "Literatura de Marques de Carvalho é apenas um dos exemplos (...) [de uma] 'explosão' de discursos". Explosão de discursos que impede o leitor de passar indiferente diante destas páginas que, embora produzidas no tempo de ontem, não envelhecem, graças às provocações que elas se nos apresentam. Daí a minha alegria em ver Que bom marido! e Desilusão listados como leitura recomendada aos nossos vestibulandos. E maior alegria ainda é perceber que esta caminhada iniciática a Marques de Carvalho será feita, aqui neste livro, pelo já capitão de longo curso que é Paulo Maués Corrêa, apesar de sua pouca idade.
A literatura de Marques de Carvalho desafiou o leitor do século XIX e continua a nos desafiar. Quem quiser pagar pra ver que abra as páginas deste livro.
Belém, julho de 2011.
Paulo Nunes
Doutor em Literaturas de Língua Portuguesa
Professor da Universidade da Amazônia
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