Entrevista com o Professor Osmar Tadeu, autor do livro "Chico: O poeta da fresta".
LANÇADO EM 2001, SENDO UM DOS PRIMEIRO TÍTULOS DA EDITORA PAKA-TATU, "CHICO: O POETA DA FRESTA" CONTINUA ATUAL?
Em que consiste a atualidade de um livro? Certamente a natureza do texto há de interferir na resposta que se possa considerar. A atualidade de uma obra de ficção deve levar em conta a identidade dos elementos estruturais que criados em outras épocas ainda encontram eco nas sociedades modernas. A tragédia clássica é atualíssima na medida em que os traços intrínsecos dos personagens se repetem em nossos dias. Um trabalho acadêmico apresenta uma outra significação. O “Poeta da Fresta” é antes de tudo um depoimento pessoal ou de outra forma, um reconhecimento a um dos maiores artistas deste país. Muitos estudiosos das letras têm se manifestado sobre Chico Buarque. Se tomarmos a idéia de atualidade levando em conta o valor do objeto analisado, diremos que sem qualquer dúvida o texto é atual já que Chico é cada vez mais respeitado e considerado no seio dos que admiram os grandes artistas contemporâneos.
EM 2008, EM MUITOS SEGMENTOS, MAIS ESPECIFICAMENTE NO ÂMBITO CULTURAL, SE REMEMORA OS 40 ANOS DE MAIO DE 1968, O ANO DA REBELDIA NO MUNDO, O ANO QUE NÃO ACABOU (SEGUNDO ZUENIR VENTURA) NO BRASIL. O SEU LIVRO TRAZ REFERÊNCIA A ESSE PERÍODO EMBLEMÁTICO DA HISTÓRIA E CULTURA BRASILEIRAS?
Aparentemente vivemos um momento de calmaria política. A chegada dos “ rebeldes” de 68 ao poder cria uma situação “sui generis ” . Os militares deixaram o poder. Em alguns países latinos, generais estão sendo julgados e até condenados. No Brasil a chamada Lei da Anistia teria pacificado os contendores e adversários da década de 60 e 70. Entende-se que os “rebeldes”, para garantir o poder de que hoje desfrutam precisam passar uma borracha no passado e evitar o “revanchismo”. Pragmatizam-se, a fim de afastar focos “subversivos”. Nosso livro, ao focalizar a relação entre a criação artística de Chico Buarque e fatos históricos do período de chumbo, seguramente procura explicitar a presença dos acontecimentos sociais e culturais que se manifestam através da palavra artística concebida pelo grande poeta.
CHICO BUARQUE CONTINUA SENDO UM NOME DE GRANDE REFERÊNCIA NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, SEM DÚVIDA. QUE LIÇÕES DE VIDA E ARTE OS NOVOS COMPOSITORES DEVERIAM APRENDER COM O VELHO MESTRE, EM SUA OPINIÃO?
Uma das grandes lições de Chico, entre tantas que nos fornece, é de que a Arte está vivamente comprometida com as grandes questões humanas. Os dramas dos menos favorecidos, a esperança de um novo mundo, a luta pela liberdade, a defesa intransigente da dignidade da pessoa, o desejo de um país justo, sem esquecer as questões mais íntimas da existência, representam matizes de um sentimento profundo de identidade com seu tempo, presentes na obra de Chico, e que se encontram esmaecidos diante da parafernália consumista . Tenta-se construir uma sociedade de direitos e liberdades, em que, sem o porrete militar, com todas as chamadas instituições funcionando de forma aparentemente livres e independentes, não se consegue resolver os graves problemas sociais, na velocidade exigida pelas questões da sociedade menos favorecida. Nesta apatia democrática, ocorre um pacto de mediocridade. Chico, neste cenário, posto que respeitado, não desfruta da popularidade de outros tempos. Parece peça de museu. Embora sua obra continue servindo de referência, não há a visibilidade de que já gozou. Talvez não haja tempo para se apreciar uma obra que exige cuidado e atenção para penetrar em seu encantamento artístico. Ou estamos todos nostalgicamente frustrados com os acontecimentos atuais, que nem sempre correspondem aos sonhos dos anos 60 e 70?
A POESIA DE CHICO SEMPRE FOI O FORTE NAS COMPOSIÇÕES DELE, BOA PARTE NASCIDAS NO PERÍODO EM QUE ERA TRIVIAL SE FAZER "CANÇÕES DE PROTESTO", CONFORME ASSINALA NELSON MOTTA. O QUE O SENHOR DESTACA NAS COMPOSIÇÕES DO ARTISTA E EM QUE ÉPOCAS?
Existe diferença entre fazer um texto de protesto e uma obra artística em que ocorre a insatisfação do poeta diante do mundo que o cerca. Um panfleto, e os havia muito na década de 60 e 70, traz uma linguagem própria, com objetivo bem definido. O básico consiste em se aproximar o mais rápido possível do público que se deseja convencer sobre determinada linha ideológica. O trabalho artístico sucumbe, muitas vezes, diante do resultado imediato que se almeja. Uma frase de efeito tem uma significação acima de uma peça metafórica criativa a exigir certa acuidade para decifrá-la. Há quem recuse a catalogação da obra de Chico como poesia de protesto. De certa maneira, no período militar recente da nossa história, muitos compositores criaram versos denunciando o regime político vigente. Muitos criaram obras de elevado valor artístico como forma de protestar e resistir contra a força bruta reinante. A grande diferença que se observa em Chico, neste sentido, em primeiro lugar, diz respeito à extensão de sua obra, conjugada com a abordagem de uma gama variada de temas e fatos. Por outro lado, o domínio dos recursos lingüísticos e/ou estilísticos confere a Chico uma posição ímpar dentro da Arte Brasileira.
QUEM SERIA O CHICO BUARQUE DA MPB CONTEMPORÂNEA? OU, PARA USAR UMA COMPARAÇÃO EXTEMPORÂNEA, CHICO, COMO PELÉ, NÃO POSSUI SUCESSOR?
É possível que haja poetas ou compositores que desfrutem da força ou do poder criativo que se identifica em Chico Buarque. A verdade é que a projeção de Chico, por diferentes razões, alcançou uma posição privilegiada. O grande artista tem seu nome reconhecido sem contestação. Pelé, certamente, é muito mais lembrado. É bom não esquecer, porém, que existem aqueles que fazem severas críticas ao nosso grande esportista. Se desejarmos comparar a criação de Chico com seus eventuais sucessores, melhor seria recorrer ao grande Oscar Niemeyer. E lembrar que hoje se constroem muitos edifícios, mas a flor do Museu de Niterói é única. .
Veja também outras entrevistas:
Silvia Cannan-Oliveira - "Compreendendo seu Filho - uma Análise do Comportamento da Criança".
Entrevista com a Profa. Maria de Nazaré Sarges, autora do livro "Belém -Riquezas produzindo a Belle-Époque"