Jornal Amazônia Hoje, 22/4/2007

 

Criar filho é delicada missão

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Sem milagre, livro traz orientações aos pais sobre regras e limites

 

Avelina Castro
Da
Redação

Os filhos não nascem com bulas e manuais de instrução. E também nãoreceita prescrita por médicos, orientando como educá-los de forma correta, para que cresçam e se tornem pessoas de bem. Mas, para tentar ajudar mães e pais a compreender melhor a dinâmica de suas relações com os filhos, as psicólogas Silvia Canaan, Maria Elizabeth Neves, Adriene Robert e Francynete Melo e Silva estão relançando o livro 'Compreendendo seu filho - uma análise do comportamento da criança', pela editora Paka-Tatu. O lançamento será na próxima quarta-feira, 25, às 19 horas, no teatro Estação Gasômetro. Haverá, na ocasião um espetáculo que unirá teatro, música e poesia, na apresentação do livro.

A tarefa de educação dos filhos é árdua. E em tempos de jogos eletrônicos e internet, bombardeando as crianças e adolescentes com milhões de informações, os pais precisam estar atentos para orientá-los bem. Mas como colocar limites e regras? Como saber a medida exata de punição para cada comportamento inadequado? Quais os 'efeitos colaterais' dessas punições? Esses e outros questionamentos são analisados e colocados como reflexão para os pais no livro.

Mas as autoras fazem questão de destacar que o livro não traz bula. O seu principal objetivo é levar os pais a uma reflexão sobre a importância de seu papel na formação e educação dos filhos. E para se ter uma idéia da dificuldade enfrentada pelos pais nessa dura missão de educar os filhos, a primeira edição do livro, publicada em 2002, pela editora Paka-Tatu, esgotou rapidamente. Porém, a procura foi tanta que o livro está sendo relançado.

Silvia Canaã explica que o livro traz uma linguagem bem simples, com ilustrações que demonstram situações do cotidiano, entre pais e filhos. A idéia, segundo Silvia Canaã, é fornecer ferramentas que possam auxiliar os pais a lidar com os filhos, aproximando-os. Para isso, a psicóloga explica que a abordagem psicológica da análise do comportamento destaca que os filhos utilizam-se do exemplo no seu processo de formação, absorvendo comportamentos e posturas existentes nos pais e também no meio. Por isso, Silvia Canaã ressalta que mães e pais precisam estar atentos para o fato de que eles são fortes exemplos nesse processo.

Para ilustrar essa relação entre pais e filhos, o livro traz algumas situações vividas pela 'Família Fragoso', uma família fictícia, que é usada pelas psicólogas para traduzir melhor as análises de comportamentos das crianças e adolescentes. A família é composta de mãe, pai e quatro filhos. Uma escadinha de meninos e meninas, com 1, 4, 9 e 13 anos. 'Destacamos no livro a importância da interação entre pais e filhos, da vivência e expressão de afeto e do reforço aos bons comportamentos e reflexão das condutas inadequadas adotadas pelas crianças e adolescentes', disse Silvia Canaã.

Afeto e punição são dilemas

As psicólogas alertam também que as punições têm 'efeitos colaterais' negativos a médio e longo prazos. Dentre os efeitos estão: aumento da ansiedade, desenvolvimento de medos e inseguranças e o 'punidor' passa a adquirir uma referência negativa, que o filho poderá passar a evitar. 'É preciso que os pais reflitam bastante sobre essas questões de limites e de punições', disse Maria Elizabete das Neves.

Para ela, mais do que punir, é preciso que os pais estejam atentos a sua expressão de afeto em relação aos filhos. 'É importante também elogiar, beijar, dar carinho e apoio, recompensando-o quando ele estiver com um comportamento legal', ressaltou Maria Elizabete. 'É preciso enxergar também as coisas boas feitas pelos filhos, pois há uma tendência nos pais a tecerem comentários sobre o que eles fazem de ruim', complementou.

Sobre essa recompensa diante dos bons comportamentos, Silvia Canaan acrescenta que tem que ficar claro para os filhos que não é 'a criança' ou 'o adolescente' que está sendo punido, mas a sua conduta ruim. Por isso, ela e as demais co-autoras do livro desaconselham expressões do tipo: 'você 'é' preguiçoso!'. A orientação é que se diga: 'você 'está' com um comportamento muito preguiçoso'. Caso contrário, a auto-estima do filho estará sendo atingida com a acusação genérica feita pelo pai, o que também, segundo as psicólogas, configura uma forma de violência.

Firmeza na decisão

Os maiores desafios enfrentados pelos pais estão no estabelecimento de limites e regras e - quando necessário - de punição aos filhos. Com relação à colocação de limites e regras, a psicóloga Adriene Robert destaca que, em geral, há dois caminhos bem distintos adotados pelos pais: o das palmadas e gritos, e o do famoso 'castigo', que é muito usado com a retirada de algo que a criança e/ou adolescente adora.

Feita a escolha do caminho, fica faltando decidir de que forma isso será implementado. Qual a forma correta? Mais uma vez, Adriene Robert reforça a inexistência de fórmulas ou receitas. Mas, destaca que todas as punições possuem funcionamento temporário. O castigo, por exemplo, segundo ela, para ter maior eficácia tem que ser aplicado imediatamente após a prática de conduta inadequada pelo filho. 'Se a prática tiver sido, por exemplo, pela manhã e o pai for dar o castigo à noite, muito pouca eficácia essa punição terá', diz a psicóloga.

Além disso, Adriene Roberta alerta os pais para a necessidade de consistência na punição, ou seja, é necessário que a postura das mães e dos pais seja mantida (a partir de sua primeira aplicação), sempre que eles se depararem com o mesmo tipo de conduta que foi castigada anteriormente.Uma outra orientação que é refletida no livro pelas psicólogas é a firmeza nas decisões. 'É preciso olhar no olho do filho, sem alterar o tom de voz, agindo com clareza e determinação, para que um 'não' não se transforme num 'talvez' diante da insistência do filho', disse Adriene, acrescentando. 'O 'não' tem que ser 'não'.

Evitar sempre uso da violência

Saber onde e com quem os filhos estão é outra grande preocupação dos pais. Nilda Soares revela que liga para o filho, em média, cinco vezes por dia. 'Eu ligo com a desculpa de saber se ele comeu, se foi pra academia, entre outras coisas, para conferir onde ele está', confessa.

O professor Arenales Barroso dos Santos, de 48 anos, tem duas filhas: Elaine Kelly, de 20 anos, e Ingrid Tainá, de 15. As duas moram com ele desde que ele se divorciou de sua mulher. 'Nós as deixamos à vontade para fazer a escolha e elas decidiram ficar comigo', contou o pai, que, desde então, enfrenta sozinho a árdua missão de educar as duas mulheres. 'Nossa! Isso é muito difícil e, às vezes, é complicado e sinto dificuldade para entendê-las totalmente porque elas são mulheres', confessa.

Mesmo com uma formação pessoal construída numa família nuclear tradicional, na qual ele confessa ter 'apanhado até de graça'. 'Mas eu nunca bati em minhas filhas. Eu brigo, converso com elas, mas sempre decidi que não usaria de violência com filhos', destacou. 'Mas o estabelecimento desses limites para elas, para mim, foi mais difícil do que a própria separação', complementou.

O pai, ou 'pãe', termo atribuído a pais que também atuam como mães, diz que sempre trabalhou com as filhas a construção de uma prática de autonomia nelas. 'Porque a autonomia traz junto a responsabilidade e a boa administração da liberdade', acredita.

As duas filhas dele tem namorados. Os rapazes freqüentam a sua casa, mas à noite, quando ele também está em casa. E eles podem até ir para o quarto com elas, mas as portas têm que ficar abertas. Mas será que o professor está satisfeito com o resultado da educação que tem dado para as filhas? 'Se eu tivesse que começar de novo, eu faria tudo do mesmo jeito porque essa é a única forma que sei fazer e acho que está dando certo', concluiu Arenales.

Criações diferentes

Uma coisa ninguém discorda: regras e limites são importantes para a formação dos filhos, ajudam a dar mais estabilidade, segurança e serenidade para as crianças e adolescentes, fazendo com que eles reconheçam o que é bom e o que é ruim para a vida deles. A secretária Nilda Pereira Soares, de 46 anos, tem quatro filhos. Uma escadinha, composta de três homens e uma mulher de 30 anos. Os demais tem 31, 28 e 17 anos. Mas o que ela fez para impor regras e limites para toda essa turma? A resposta é diferente para cada um deles e tem uma relação direta com as suas fases de vida. Formada em Administração, Nilda conta que foi casada duas vezes. Os três filhos mais velhos são do primeiro casamento e o mais novo da última relação amorosa. 'Eu tive meu primeiro filho quando tinha 14 anos. Era muito imatura e não sabia como agir', revelou.

O filho mais velho de Nilda foi criado pelos pais dela, na forma antiga e rígida, que adotava as palmadas como punição. os dois do meio a prática adotada para dar limites foi usando os castigos. o mais novo, o adolescente de 17 anos, é criado com base em muito diálogo. 'Acho que quando meu filho mais novo nasceu eu estava mais preparada para educá-lo, pois tinha 30 anos', comentou.