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Avelina Castro
Da Redação
Os filhos não
nascem com bulas e manuais de
instrução. E também não há
receita prescrita por médicos,
orientando como
educá-los de forma correta, para que
cresçam e se tornem pessoas de
bem. Mas, para tentar ajudar mães e pais a compreender melhor a dinâmica de
suas relações com os
filhos, as psicólogas Silvia Canaan,
Maria Elizabeth Neves, Adriene Robert e Francynete
Melo e Silva estão relançando o livro
'Compreendendo seu filho -
uma análise do comportamento da
criança', pela editora
Paka-Tatu. O lançamento
será na próxima quarta-feira,
25, às 19 horas,
no teatro Estação Gasômetro.
Haverá, na ocasião um espetáculo que
unirá teatro, música e poesia,
na apresentação do livro.
A tarefa de
educação dos filhos é árdua. E
em tempos de
jogos eletrônicos e internet,
bombardeando as crianças e adolescentes com milhões de
informações, os pais
precisam estar atentos para
orientá-los bem. Mas como colocar limites e regras? Como saber a medida exata de
punição para cada comportamento
inadequado? Quais os
'efeitos colaterais'
dessas punições? Esses e outros
questionamentos são
analisados e colocados como reflexão para os
pais no livro.
Mas as autoras
fazem questão de destacar que o livro não
traz bula. O
seu principal objetivo é levar os
pais a uma reflexão sobre a importância de
seu papel na
formação e educação dos
filhos. E só para se
ter uma idéia da
dificuldade enfrentada pelos pais
nessa dura missão de
educar os filhos, a
primeira edição do
livro, publicada em
2002, pela editora
Paka-Tatu, esgotou rapidamente. Porém, a
procura foi tanta que o livro
está sendo relançado.
Silvia Canaã explica que o livro
traz uma linguagem bem simples, com ilustrações que
demonstram situações do
cotidiano, entre pais e filhos. A
idéia, segundo
Silvia Canaã, é fornecer ferramentas que
possam auxiliar os pais a lidar com os
filhos,
aproximando-os. Para isso, a
psicóloga explica que a abordagem psicológica da
análise do comportamento
destaca que os
filhos utilizam-se
do exemplo no seu processo de
formação, absorvendo comportamentos e posturas
existentes nos pais e também no
meio. Por isso,
Silvia Canaã ressalta que mães e pais
precisam estar atentos para o fato de
que eles são fortes exemplos
nesse processo.
Para ilustrar
essa relação entre pais e filhos, o
livro traz algumas situações
vividas pela 'Família Fragoso',
uma família fictícia, que é
usada pelas psicólogas para traduzir melhor as análises de comportamentos das crianças e adolescentes. A
família é composta de
mãe, pai e quatro filhos.
Uma escadinha de meninos e
meninas, com 1, 4, 9 e 13 anos.
'Destacamos no livro a importância da
interação entre pais e filhos,
da vivência e expressão de
afeto e do reforço
aos bons comportamentos e reflexão
das condutas inadequadas
adotadas pelas crianças e adolescentes',
disse Silvia Canaã.
Afeto e punição são dilemas
As psicólogas alertam também que as punições têm 'efeitos colaterais' negativos a médio e longo prazos. Dentre os
efeitos estão: aumento da
ansiedade, desenvolvimento de
medos e inseguranças e
o 'punidor' passa a adquirir
uma referência negativa, que o filho
poderá passar a evitar.
'É preciso que os
pais reflitam bastante sobre
essas questões de
limites e de punições',
disse Maria Elizabete das Neves.
Para ela, mais do
que punir, é preciso que os
pais estejam atentos a sua expressão de
afeto em relação
aos filhos. 'É importante também elogiar, beijar, dar carinho e apoio,
recompensando-o quando ele
estiver com um comportamento legal',
ressaltou Maria Elizabete. 'É preciso enxergar também as
coisas boas feitas pelos filhos, pois há
uma tendência nos pais a só
tecerem comentários sobre o que eles
fazem de ruim',
complementou.
Sobre essa recompensa diante
dos bons comportamentos,
Silvia Canaan acrescenta que
tem que ficar claro para os
filhos que não é
'a criança' ou 'o
adolescente' que
está sendo punido, mas a sua conduta ruim. Por isso, ela e
as demais co-autoras do
livro desaconselham
expressões do tipo: 'você
'é' preguiçoso!'. A orientação é que se
diga: 'você 'está' com um comportamento muito preguiçoso'. Caso contrário, a
auto-estima do filho
estará sendo atingida com a acusação genérica feita pelo pai, o
que também, segundo as
psicólogas, configura uma forma de
violência.
Firmeza na
decisão
Os maiores desafios
enfrentados pelos pais
estão no estabelecimento de
limites e regras e
- quando necessário -
de punição aos filhos. Com relação à colocação de
limites e regras, a
psicóloga Adriene Robert destaca que, em geral,
há dois caminhos bem distintos
adotados pelos pais: o
das palmadas e gritos, e
o do famoso 'castigo', que é muito
usado com a retirada de
algo que a criança e/ou adolescente
adora.
Feita a escolha do
caminho, fica
faltando decidir de que forma isso
será implementado. Qual a forma correta? Mais
uma vez, Adriene Robert reforça a inexistência de
fórmulas ou receitas. Mas,
destaca que
todas as punições
possuem funcionamento temporário. O
castigo, por exemplo, segundo ela, para ter maior eficácia
tem que ser
aplicado imediatamente após a prática de
conduta inadequada pelo filho.
'Se a prática tiver sido, por exemplo, pela manhã e
o pai só
for dar o castigo à noite, muito pouca eficácia
essa punição
terá', diz a psicóloga.
Além disso, Adriene Roberta alerta os
pais para a necessidade de
consistência na punição, ou
seja, é necessário que a postura
das mães e dos pais
seja mantida (a partir de
sua primeira aplicação), sempre que eles se
depararem com o mesmo tipo de
conduta que já
foi castigada anteriormente.Uma
outra orientação que é
refletida no livro
pelas psicólogas é a firmeza
nas decisões. 'É preciso olhar no
olho do filho, sem alterar o tom de
voz, agindo com clareza e determinação, para que um 'não' não se
transforme num 'talvez' diante da
insistência do filho',
disse Adriene, acrescentando. 'O 'não'
tem que ser 'não'.
Evitar sempre uso da
violência
Saber onde e com quem os
filhos estão é outra grande preocupação
dos pais. Nilda Soares
revela que liga para o filho, em média, cinco vezes por dia. 'Eu
ligo com a desculpa de
saber se ele já
comeu, se já
foi pra academia, entre
outras coisas, só para conferir onde ele
está', confessa.
O professor Arenales Barroso dos Santos, de
48 anos, tem duas
filhas: Elaine Kelly, de 20 anos, e
Ingrid Tainá, de 15. As duas moram com ele desde que ele se
divorciou de sua mulher. 'Nós as
deixamos à vontade para fazer a escolha e elas
decidiram ficar comigo',
contou o pai, que, desde então,
enfrenta sozinho a árdua missão de educar as duas mulheres. 'Nossa! Isso é muito difícil e,
às vezes, é complicado
e sinto dificuldade para
entendê-las totalmente porque elas são mulheres',
confessa.
Mesmo com
uma formação pessoal
construída numa família nuclear
tradicional, na qual ele
confessa ter 'apanhado até de
graça'. 'Mas eu nunca
bati em minhas
filhas. Eu
brigo, converso com elas, mas sempre
decidi que não
usaria de violência com filhos',
destacou. 'Mas o estabelecimento
desses limites para elas, para mim,
foi mais difícil do
que a própria separação',
complementou.
O pai, ou 'pãe', termo
atribuído a pais que também
atuam como mães,
diz que sempre
trabalhou com as
filhas a construção de uma prática de
autonomia nelas. 'Porque a autonomia
traz junto a responsabilidade e
a boa administração da
liberdade', acredita.
As duas filhas dele tem namorados.
Os rapazes freqüentam a sua casa, mas só à noite, quando ele também
está em casa. E
eles podem até ir para o quarto com elas, mas as
portas têm que ficar abertas. Mas
será que o professor
está satisfeito com o resultado da
educação que
tem dado para as
filhas? 'Se eu
tivesse que começar de
novo, eu
faria tudo do
mesmo jeito porque
essa é a única forma que
sei fazer e acho que
está dando certo',
concluiu Arenales.
Criações diferentes
Uma coisa ninguém
discorda: regras e limites são importantes para a formação
dos filhos, ajudam a dar mais estabilidade, segurança e serenidade para as
crianças e adolescentes,
fazendo com que eles
reconheçam o que é bom e
o que é ruim para a vida
deles. A secretária
Nilda Pereira Soares,
de 46 anos,
tem quatro filhos.
Uma escadinha, composta de
três homens e
uma mulher de 30 anos. Os demais tem 31, 28 e 17 anos. Mas o que ela
fez para impor regras e limites para toda
essa turma? A resposta é diferente para cada um
deles e tem uma relação direta com as
suas fases de
vida. Formada em Administração,
Nilda conta que já
foi casada duas vezes.
Os três filhos mais velhos são do
primeiro casamento e
o mais novo da
última relação amorosa. 'Eu
tive meu primeiro filho quando tinha 14
anos. Era muito imatura e não
sabia como agir', revelou.
O filho mais velho de
Nilda foi criado pelos pais
dela, na forma antiga e rígida, que adotava as palmadas como punição. Já os dois do meio a prática adotada para dar limites foi usando os castigos. Já o mais novo, o
adolescente de 17 anos, é
criado com base em muito diálogo.
'Acho que quando meu filho mais novo
nasceu eu já
estava mais preparada para
educá-lo, pois já tinha 30
anos', comentou.
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